segunda-feira, 28 de abril de 2014

A Ruta Nacional 40 – Carretera Panamericana


Post atulaizado com dados e fotos por onde passei em fev/mar de 2017

Durante estes últimos seis anos dedicados a estudar e a viver a Cordilheira do Andes, descobri algo que me deixou fascinado e com muita vontade de conhecer em todos os detalhes: A Ruta Nacional 40


A Rocinante na RN40, província de Neuquén, descendo de Bariloche, dia 4 de janeiro de 2011.




A RN40, ou Ruta Austral é o trecho argentino da famosa Carretera Panamericana, que deveria começar no Texas e ir até a Patagônia, e por motivos óbvios nunca ficou pronta. O trecho mexicano foi palco de corridas de carro e o trecho argentino é o Graal (o cálice, não o posto...) para quem gosta de uma aventura em moto de verdade.


A parte oeste da Argentina é rasgada de norte a sul por um monumento nacional e uma lenda para quem viaja por terra. Quem tem daquelas motos americanas medíocres nunca ouviu falar... Ou morre de medo dela.

Vou ensaiar um paralelo. A rota 66 tem sua extensão no sentido leste para oeste, a pouca variação de latitude traz uniformidade no clima e a coisa acontece em um país onde tudo é previsivel e funciona.

A RN40 começa a uma latitude semelhante à de campos de Goytacases (estado do RJ) e desce mais ao sul do que o ponto mais austral da Nova Zelandia e chega a 1300km ( linha reta) do continente antártico.

Ha todos os tipos de clima e uma grande variedade de vegetação, embora o que predomine seja o deserto.

Esta estrada está em um país com uma história turbulenta, e que esta sempre à beira de mais e mais profundas crises. Posso dizer que a vida por ali é uma batalha diária e não é nada previsível. 

Por ali as coisas nem sempre funcionam da maneira que nós paulistas estamos acostumados. MAs eu tenho a obrigação de dizer que sempre fui recebido por pessoas maravilhosas e tive as melhores experiências quando o assunto são seres humanos.

Vou contar sobre a estrada e deixar que você mesmo viva e depois conte as suas experiencias com o inesperado, com o clima difícil, com o piso inseguro e com as fantásticas pessoas. 








Apesar de anos de esforço em cuidar e pavimentar a velha estrada, grande parte da RN40 ainda está em rípio. Rípio é um pavimento feito de pequenas pedras que se soltaram dos Andes e continuam soltas pela estrada, e deixam a sua moto ainda mais solta e seu futuro mais incerto. Existem basicamente dois tipos: O Rípio duro que, apesar de compactado, tem pequenas pedras soltas que escorregam e o Rípio mole que seria algo como uma estrada de terra brasileira com muito, mas muito cascalho grande e solto. 

Na verdade, a RN40 nunca foi projetada, nem tampouco executada, como uma rodovia qualquer. Quando surgiu a ideia de uma estrada que ligasse as capitais do continente americano, o que aconteceu na Argentina foi organizar, interligar e melhorar uma série de caminhos que existiam entre Mendoza e a fronteira com a Bolivia. Em raros trechos houve construção. 

Vamos somente imaginar o que eram estas pequenas estradas e caminhos: Os veículos automotores eram raríssimos e só funcionavam próximos às cidades (pneus e combustível eram o limitador). Por aqueles caminhos andavam tropas a cavalo, manadas de gado ou lhamas, pequenas carroças. Pavimentação ou simples cortes e aterros eram um sonho distante e o perfil das rotas seguia o relevo. Pontes eram um raro luxo. Ha um mapa de 1940 que mostra o emaranhado de caminhos no norte do país, e quais destes foram ligados para formar o embrião da cuarenta

Quem  passou pela  estrada na década de 70 sofreu muito, principalmente com a falta de informação. Em vários lugares havia mais de uma Rn40 e placas simplesmente diziam " Ruta 40 Alternada". Foi durante os anos 80 e 90 que a coisa melhorou e muito, principalmente com a diretriz da YPF de colocar um ponto de combustível onde houvesse uma vila Argentina. Em 1994 começou um grande esforço para arrumar e pavimentar a estrada em sua parte sul. A pena é que muitas províncias aproveitaram a verba para modernizar e pavimentar outros caminhos que lhes eram importantes (principalmente na provincia de Mendoza), renomeando os novos trechos de "RN40". 


Vamos seguir seu percurso, do norte ao sul.

La Cuarenta começa ao norte da Argentina em uma cidade fronteiriça que se chama La Quiaca na Argentina e Villazón na parte boliviana. Na Bolívia o trecho da panamericana que vem para o sul se chama ruta nacional 14. Esta estrada entra na Argentina em La Quiaca emendando na RN40. Porém neste trecho, como em vários outros, a La Cuarenta perdeu sua importância para a estrada que vem por Yacuiba, que passa mais a leste. 



























Uma vez em La Quiaca, que tal dar um passeio até Ushuaia??? (foto Google).

Repare na placa: 5.121km...  em rio Gallegos a mesma placa diz 5.080. Segundo Adoniran Barbosa, as distancias " Vareiam" !!!


Hoje, o caminho da RN40 foi substituído pela RN9 que vai direto a San Salvador de Jujuy pela Quebrada de Humahuaca (veja dia 24 de dezembro de 2011).



(foto Google).


Saindo de La Quiaca (fronteira com Villazón, Bolivia) (alt.: 3.500m) a nueva RN40 vira por uns 50km para oeste, com nome de RP5 e daí começa estreita e em rípio, sua jornada para o sul, subindo até quase 4.500m de altitude. Coisa de 300km depois passa por Susques e cruza com a RN52 (Paso de Jama) que vem de Purmamarca e segue até a divisa Chilena (veja 25 de dezembro de 2011, 4 março 2017). De Susques segue para sul e vai até San Antonio de Los Cobres (alt.: 3800m). 






Acima: na vila de San Antonio de los Cobres uma placa indica o caminho pela antiga 40 Abaixo: O trecho original da 40 proxima a Los Cobres (fotos de março de 2017)





















Aqui há uma controvérsia: o traçado original da Panamericana saía de La Quiaca, passava pela vila de Abra Pampa (trecho hoje se chama Rn9) e seguia direto a San Antonio de Los Cobres. Estre trecho ainda existe e hoje passa ao lado do salar grande (veja dia 25 de dezembro de 2010) e depois se embrenha por um vale arenoso e desértico. Seu leito não é nada mais do que o deserto varrido, sem os obstáculos grandes, com muita poeira, paisagem lunar e nada de vida. Já o trecho novo passa a coisa de uns 60km mais a oeste, corta uma imensidão desértica, com ainda mais rochas e serras. O leito é o deserto varrido, agora com costelas de vaca, com muita poeira e uma paisagem lunar. Então, por qual das duas RN40 você prefere passar?






(foto Google).




Poucos quilomet
ros de depois de San Antonio de Los Cobres a estrada fica estreita (novidade) e serpenteia morro acima até Abra de Acay, a 4.959m de altitude, passando ao lado do Cumbre de Acay (alt.: 5.731m). É o trecho de estrada federal mais alta nos Andes e em todo o continente americano. Desce para o sul até um vale fértil chamado El Trigal onde fica uma pequena vila chamada La Poma (uma cidade com 5 ruas e quatro travessas a uma altitude de 3.050m). Os 91km entre La Poma e San Antonio de Los Cobres são, na minha muito humilde opinião, a estrada mais difícil nos Andes Argentinos: estreita, rípio precário, deserto, sem vegetação, sem movimento e vai até praticamente 5.000m de altitude. Estre trecho não é coisa para Harleiro, é coisa para Cabrón Valiente! Em março de 2017 eu tentei muito passar por ali, mas as chuvas fora de época interditaram a 40.



A pé em Abra de Acay? senta e chora!!!   ao fundo se destaca o Volcón Tuzgle (alt.: 5.470m) 

(foto Google).




O monumento segue sempre em rípio para o sul, de La Poma desce até Payogasta e de lá para Cachi (alt.: 3.361m) um trecho estreito e mal asfaltado de 11km, pedacinho chato. O vale é interessante, fértil e cultivado criado pelo degelo de picos eternamente nevados do Nevado de Cachi, um bloco gigantesco da cordilheira principal. 

De Cachi se segue até a interessantíssima Cafayate (alt.: 1.800m) (vide post 4 mar 2017). São coisa de 130km ainda está em rípio, largo e movimentado. Entra em Cafayate pelo norte, encontra a RN68 que vem de Salta e se funde com a cidade. A saída sul por Cafayate é linda, é o caminho para quem vai ou vem de Taffi del Valle.
































Acima: o trevo em Payogasta que leva à Cuesta de Obispo ou La poma.   
Abaixo o trecho chatíssimo de 11km entre Payogasta e Cachi. (mar.17)



Acima: no trecho proximo à La Poma (mar.17)
De lá entra na província de Catamarca onde segue por um largo vale fértil margeando o rio Santa Maria com atitude média de 1.900m. Em Catamarca começa uma praga: Los Badenes. São as passagens de riachos ou rios por cima da estrada. Mesmo quando secos, os Badenes são depressões de concreto e se precisa reduzir para passar por eles.

Estes Badenes arruinaram as minhas médias de velocidade e aumentaram o consumo. Itens fundamentais para quem viaja sozinho de moto.

Antes da vila de Santa Maria a 40 segue em ripio e ha uma variante em asfalto, ao leste do rio, pela bagunçada vila de Amaícha ( caminho péssimo...). entre Amaícha e Casa de Piedra se anda por dentro de vilas e é bem lento e chato. Enquanto isso a RN40 segue pelo lado oeste do rio passando por pequenas fazendas. É um misto de ripio e asfalto péssimo.



ACima, Baden proximo à Santa maria  Abaixo Fronteria Salta/Catamarca





Desde Casa de Piedra se vira para oeste contornando o rio Pie de Medano e se entra em uma colossal planície deserta chama Hombre Muerto (é maravilhoso, 2.240m de alt.), tudo por uma estrada nova em  asfalto confortável e largo até descer para a cidade de Belén (alt.: 1.800m). 

Segue por 80km à beira da Cuesta de Zapata, onde cruza a RN60 a 940m de altitude (veja dia 2 de janeiro de 2012, 27 fevereiro 2017).


Próximo ao encontro com a RN60, vila de Alpasinche, uma vale bonito, cultivado e rico.


Apos alguns poucos km pela RN60 se encontra a RN40 para o sul, ela segue por outro vale lindo e fértil, com vilas organizadas e movimentado. Vira mais uma vez para oeste e sobe  até entrar no grande vale formado pelas cuestas de La Rioja e de Famantina. Segue por este vale subindo em uma reta até Chilecito, já na província de La Rioja. Por ali a estrada está toda asfaltada e o caminho é lindo e gostoso. (veja 26 fevereiro 2017)







Logo após Chilecito o caminho segue para o sul até Nonogasta e mais uma vez vira para oeste e sobe até 2.300m de altitude por um caminho estreito, sinuoso perfeitamente retificado e pavimentado. Maravilhosa a estrada. Trecho chamado de Cuesta de Miranda.

Descendo em um trecho pavimentado por um vale que leva ao povoado de Villa Unión. Este trecho ficou inalterado de 1928 até ser repavimentado em 2016.


























 Acima, a nova e excelente estrada pela Cuesta de Miranda  Abaixo: a descida para Nonogasta na nova estrada. Bem ao funda, a gigantesca Cuesta de La Rioja, que forma o vale onde fica chilecito. (fotos de março de 2017)





Saindo da Custa de Miranda se segue para oeste, em direção à cordilheira principal. Antes de se passar por Guandacol a estrada passa pelo vale do rio La Troya, e passa por baixo deste, apesar do volume de água e da largura do rio, a passagem tem o piso de concreto e é calma e segura. 




O trecho entre Huaco e Guandacol. 25 fev 2017, uma reta sem fim e cheia dos chatíssimos Badenes... La no fundo fica o Paso Pircas Negras. (fotos tiradas em março de 2017)



Após a vila de Guandacol a estrada vira para o sul ( com um trecho lendo e cheio de Badenes) e entra na província de San Juan, até a cidade de Huaco e logo após chega à Importante San Juan. De Chilecito à San Juan são fáceis e confortáveis 405Km muito bem pavimentados. Cuidado com areia e badenes...








O trecho entre Huaco e o acesso à S J  Jachal. 23 fev 2017, 
18:00 41C


Começa o trecho com cidades importantes, De S. J. Jachal até San Juan, Mendoza, passando a oeste de San Rafael (veja dia 26 de dezembro de 2010), caminhando sempre paralela à cordilheira principal e à várias pré-cordilheiras. Próximo a Mendoza, a RN40 virou uma colcha de retalhos, com seu traçado original alterado e substituído por estradas mais novas, que levam o nome de RA144, RP 15, ou RP101.



Definitivamente não é meu veículo preferido....




















A rodovia original se embrenha na cidade de Mendoza e segue até seumarco zero no centro da cidade, ao pé do Edifício Gomes (um arranha céu da época).


Aqui, na sombra do edifício Gomes,

começava a RN40, foto de 2010.




























De Mendoza até a fronteira com a província de Neuquén são 650km em um asfalto impecável, uma altitude média de 1.000m caminhando à beira da cordilheira. O visual é bárbaro e vale o passeio. 

Entrando em Néuquen se passa por Chos Malal, ainda a cerca de 1.000m de altitude e o caminho segue direto ao sul por longas retas para o vale formado pelo Rio Salado (Alt.: 790m).



Mais cinquenta quilómetros de reta e se chega a Las Lajas (Alt.: 791m) um importante vilarejo dentro do oásis que o Rio Agrio criou em seu vale. Mais ao sul de Las Lajas se passa por Zapala e mais 150km a RN40 chega a ponte do Collón Cura (Alt.: 650m) (veja dia 4 de janeiro de 2011) indo para San Martín de Los andes.











Acima e abaixo, a ponte sobre o Rio Collon Cura

Foto dia 3 de jan de 2010



















A partir de S. M. de los Andes a RN40 contorna uma parte do lago e embrenha por uma linda região de florestas e lagos, seguindo até San Carlos de Bariloche (Alt.: 820m) que é a fronteira entre as províncias de Neuquén e Rio Negro.












Acima: Pela RN40 cerca de 20 Km depois de San Martin de los Andes. Ha quem chame este trecho até Bariloche  de Ruta de siete lagos. Foto dia 3 de jan de 2010


Abaixo: Pela Ruta de siete lagos. Foto dia 3 de jan de 2010






Acima, Um dos lagos na Ruta de siete lagos. Foto dia 3 de jan de 2010















Ha quem diga que o trecho ao sul de Bariloche é a estrada mais bonita da América, como eu adoro um deserto eu não posso concordar, mas o leitor que gosta de ver árvores, lagos, vegetação e Renaults lerdos  certamente adorará. Os picos nevados, os lagos turquesa e as florestas são realmente magníficos! Tudo isto por estradas cercadas de calafates e bem longe da Puna. Lugar maravilhoso!

Entre El Maitén e Esquel existe um caminho por dentro das montanhas (RP71) e que beira do lago Futalaufuquen, que é realmente um caminho lindo, quando o assunto são lagos, morros, verde e asfalto. Mas aqui Ruta 40 segue por leste, entra na província de Chubut passando por fora da cordilheira seguindo por Esquel (Alt.: 740m), que fica a 285km ao sul de S. C. Bariloche.








A Partir de Esquel a estrada sai um pouco para leste, abandonando a cordilheira e entrando no planície patagonica. Trezentos e vinte quilómetros após Esquel se chega a uma vila meio fantasmagórica chamada Rio Senguér. Ali termina o asfalto e começa uma sequencia imprevisível de trechos pavimentados ou de rípio. Aqui também começa o vento patagão!





Uma reta de rípio de quase cem quilômetros leva a Rio Mayo e, entrando na província de Santa Cruz, mais 125km até a cidade de Perito Moreno (Alt.: 390m) (não confunda com a geleira) que fica próxima ao lago General Carreras (ou Lago Buenos Aires).

Da vila Perito Moreno até a cidade de El Calafate são 621km de rípio e raros trechos asfaltados, de muito vento e planícies entediantes. A Sra. Kirschner assinou um documento em 2009 determinando a pavimentação de todo o trecho na província de Santa Cruz (ela nasceu lá...). No momento em que escrevi este texto, não consegui relatos precisos sobre onde ha pavimento e onde ainda existe ripio. em varios trechos no sul a estada teve até seu traçado alterado para ser pavimentado.


A importante El Calafate fica à margem do lago Argentino, que por sua vez é formado pelo degelo de várias geleiras, sendo a mais famosa a Glaciar Perito Moreno.


Ooooops!!! Uma ótima estrada para resolver imprevistos.


Duzentos e três quilómetros mais ao sul, acompanhado de vento e poeira, se chega a Cancha Carrera, um entroncamento de estrada onde há uma passagem para o Chile. Logo se passa por Rio Turbyo, uma importante cidade onde La Cuarenta já está asfaltada. De lá até Rio Gallegos são os últimos 296km, no mais legítimo rípio, até se chegar ao fim (ou onde legalmente se inicia) desta estrada, já no oceano Atlântico sul. 





A Ruta Nacional 40, ou Carrera Panamericana tem algo perto de 5.080km de extensão. Começa em uma latitude próxima à de Nova Friburgo no estado do Rio de Janeiro e vai até quase 1.500km antes do continente antártico, vai mais para o sul do que a Tasmania ou Nova Zelândia. Os 2.100 km entre San Fernando (Catamarca) até pouco ao sul de Esquel (Chubut) são pavimentados, confortáveis mas com poucos postos de combustível. Nos outros 2.980km a estrada é desafiadora e imprevisível em todos os sentidos. 

Tudo bem que a Rota 66 é mítica e blá bla bla... mas a 66 é toda pavimentada, vai de leste a oeste portanto o clima é o mesmo e tudo no país onde ela se encontra é previsível e funciona direitinho. Vamos deixar a Rota 66 para as Harley Davidson.

Em todas as minhas andanças até agora (abril de 2017), dos quase 25.000km pela Argentina, Chile e Uruguay, eu andei somente 1.351km por La Cuarenta (26% do total da 40) nos trechos muito bem pavimentados  e mais 130km em rípio. Tudo isto em dias quentes e ensolarados.

Posso dizer que os trechos pela RN40 foram sempre lindos, mágicos, confortáveis ou desafiadores.

Meu projeto de mapear a 40 continua...  Vamos ver o que o futuro reserva...










































Definitivamente não é uma tarefa comum...


Muitas das fotos deste post não são minhas... Pena... mas um dia eu publicarei as minhas!!!






Dias depois de publicar este texto eu ganhei este fantástico e muitíssimo bem escrito livro!

Recomendo!

Magica Ruta 40 - Federico B Kirbus


quinta-feira, 24 de abril de 2014

O Zen e as motocicletas... revendo um clássico dos anos 70



Em 1974 um certo Robert Pirsig, professor universitário, publicou a sua grande obra: “O Zen e a arte de manutenção de  motocicletas”.
Pirsig descreve em uma simples e objetiva narrativa, uma viagem de motocicleta de cerca de 17 dias saindo de Minessota e chegando à California, feita pelo autor com seu filho Chris na garupa de uma Honda CB77 e um casal de amigos em uma BMW R60/2. O livro tenta narrar a viagem como uma Chautauqua. Chautauquas eram circos ambulantes que  percorriam o centro oeste americano na década de 20, sua atrações eram baseadas em fatos corriqueiros da vida ou fatos recentes de noticiário. Algo como um cordél ambulante. O texto então fica pontuado de percepções filosoficas ou científicas, além de contar sobre a crise que Pirsig teve enquanto lecionava e tentar definir o que é qualidade e seus valores.


Robert Pirsig, Chis, a CB77 e toda a mudança...



Fundamental mencionar aqui que em sua introdução, Pirsig explica que, apesar do seu título "não deverá, em caso algum, ser associada a essa grande massa de informações factuais relativas a ortodoxia da prática budista e tampouco é muito preciso em relação à manutenção de motocicletas". E depois o livro segue na exploração de qualidade em metafísica, da não-intelectualização, do Zen como visualização direta do universo.  E sinceramente: muito bláblá blá.
Criei este capítulo por que nos anos oitenta foi moda ler e mencionar este livro.  Quem não o leu estava absolutamente alienado. Todos os viajantes de motocicleta ou quem sonhava em um dia comprar uma moto ou um Toyota Bandeirante para viajar , inevitavelmente caía em repetir parágrafos do livro como se fossem mantras.  Veio a Internet, as Harley começaram a ser fabricadas em Manaus e o livro caiu no esquecimento.
Me lembro muito bem que li este livro lá pelos idos de 1987. Naquela época eu nem cogitava ter uma motocicleta e várias coisas que foram escritas ali me fascinaram.  Fiquei curioso para saber mais sobre a paisagem, sobre os lugares em que ele passou. Fiquei muito mais intrigado pelas chautauquas mecânicas e geográficas do que pelo blá blá blá filosófico.
Então, nos anos estre as minhas duas primeiras etapas, eu decidi ler mais uma vez ler a tal obra que era considerada fundamental.  A primeira coisa que me irritou muito na re-leitura do clássico americano foi a implicância que ele tem com seu amigo. No romance seu amigo John anda em uma BMW R60/2 (uma das motos mais caras e sofisticadas daquela época - eu adoro esta moto!) e se recusa saber como ela funciona. Simplesmente espera que ela cumpra seu papel, coisa que a elegante máquina faz sem nenhuma crise. Pirsig, que anda em uma Honda totalmente inapropriada para uma viagem a dois com muita bagagem, passsa grande parte do tempo lidando com problemas mecânicos que ele diagnostica e resolve usando suas habilidades lógicas, ou Zen, para solução de problemas. Entendo que Pirsig desdenha o companheiro por que a BMW funciona e a sua Honda causa os mais variados enguiços.




























Eu realmente acredito que os enguiços da Honda CB77 (305cc, 2 cilindros, quatro tempos) eram causados pelo própio piloto: ele mesmo se dispunha a concertar tudo enquanto carregava seu filho e uma gigantesca bagagem. A lista de coisas que ele carregava me fez rir. Coisas totalmente inúteis para alguém como eu. Barracas, fogareiros, machados, facões, panelas e por aí afora. Eu sempre tive muita capacidade de carga e espaço, mesmo assim sempre me esmerei em carregar o mínimo do mínimo. As descrições dele sobre o estado dos pneus e de como regular os carburadores são apavorantes.

Creio que a ideia mais desconexa é justamente a frase que eu cresci ouvido. O autor declara que viajar de moto é diferente por que em uma moto “você faz parte da paisagem”. Bobagem...    Você só vai fazer parte da paisagem se cair e for enterrado ao lado da estrada, como se vê nas rodovias Chilenas. Na verdade eu e os amigos do meu grupo tentamos nos isolar do ambiente e de seus riscos à saúde. Nós nos cobrimos de casacos para o frio, usamos jaquetas, calças e botas que tentam nos proteger do clima e do chão em caso de algum evento não planejado, usamos capacetes super silenciosos...  Enfim parecemos mais como astronautas.   Outros motociclistas usam jaquetas idênticas com espalhafatosos bordados nas costas com o intuito de inseri-los em um grupo...   mas nunca para fazer parte da paisagem.  É verdade que em uma moto a absorção da realidade é muito mais intensa e violenta do que em um carro. Se sente cheiro de tudo imediatamente,  se percebe qualquer mudança no ar que te cerca com muita rapidez e vê a paisagem com muito mais campo de visão. Você  passa muito mais frio, mais calor, fica realmente empoeirado e totalmente encharcado. Na verdade, quanto mais habil, preparado e rápido voce anda, mais fica isolado em seus pensamentos e mergulhado em seu próprio cosmo.  

Não é beeeem o tipo de hotel que eu gosto...



























Quando fechei o livro pela última vez, lá por setembro de 2012, senti que aquela história é para um viajante diferente, em uma época diferente. O garoto que leu aquilo nos anos oitenta não existe mais. E fiquei com a certeza de que eu deveria seguir o meu modelo, a minha busca e não adotar o estereótipo de um clássico da literatura do século passado.  A paisagem passa e tudo o que eu faço é encarar a mim mesmo.




A motorcycle functions entirely in accordance with the laws of reason, and a study of the art of motorcycle maintenance is really a miniature study of the art of rationality itself.  ~Robert M. Pirsig, Zen and the Art of Motorcycle Maintenance



Gracias señor!!!