sábado, 4 de março de 2017

De Salta, ao nada e de volta a Salta -




Tal qual a previsão do tempo, o dia amanheceu pouco nublado e com previsão de chuva no final do dia.   Mas as montanhas estavam com poucas nuvens e eu acreditei que chegando no altiplano o dia estaria lindo. Armado de muito otimismo montei a mala central com poucas coisas e parti!

Segui os mandamentos do hotel, montei um farnel gostoso e deixei o restaurante do hotel... Aprendi que não adianta fazer mais do que dois sanduíches e levar mais do que duas frutas... mas a plaquinha do do restaurante do hotel me deu idéias.





















Eram 08:15 e confortáveis 21C quando saí do hotel, direção sudoeste.Deixei as malas e muita coisa no hotel. O plano original era andar leve e voltar depois de duas noites Uma noite em Cachi, que já vimos que não deu certo e esta noite seria em Susques.  Uma oportunidade de tentar ver o céu do Atacama à noite...

Ao noroeste de Salta fica  o ponto onde Chile, Bolivia e Argentina fazem fronteira em um ponto comum, o vulcão Zapaleri (alt.: 5.600m aprox.). Juro que eu pesquisei muito, mas não dá para ir para lá de Rocinante. Perigoso demais. 

Quando eu estava sentado confortavelmente em São Paulo, a minha ideia fixa era desbravar o mais inóspito trecho da cuarenta. Os planos eram sair de  Salta, dormir no oásis de Cachi (que não deu certo), atravessar a terrível Abra de Acay (você não sabe o que é isto?  Leia o post sobre a RN40, 28-04-2014), descer até San Antonio  de los cobres, de lá para Susques, passar por La Quiaca (fronteira com Bolivia) e voltar à Salta. Seriam tres dias rumo noroeste para a região mais abandonada da Puna Jujeña. 


Mas isso só seria possível com sol e descobri que as inesperadas chuvas daquelas semanas  arruinaram  as estradas interditando o caminho. Além disso as noites seriam nubladas...  tudo beem sem graça. Então mudança total de planos.



Acima: A saída de salta em uma manha fria e sem graça   

abaixo: a arrumadíssima vila de Campo Quijano, parada para comprar muita água.


abaixo:  Começo da serra, o clima não melhora e a estrada é pra lá de sem graça....




Saí para o sul  ( 20°C; céu nublado com nuvens baixas e 09:00) e logo encontrei RN51 para o oeste, é o caminho para o aeroporto. Logo apos um trevo o caminho fica estreito e sem pintura no chão. Mas as placas indicando Los Cobres garantiram que eu estava no caminho certo. 37 lentos km depois eu estava em Campo Quijano, a pequena e organizadíssima vila ao pé da serra (alt.: 1.530m). Parei para compra de duas grandes garrafas de água.

A estrada segue o vale do Rio Toro, a vegetação foi se transformando, de verde com árvores médias sobre morros arredondados à quase inexistente sobre solo de pedras. Me lembrou muito a entrada por Humahuaca (vide 24 dez 2011).

O caminho pelo vale também é usado pelo Tren de Las Nubes, a ferrovia mais alta do planeta, e que hoje só faz passeios turísticos vindos de Salta. Um passeio de trem que sobe até 4.000m de atitude. Deve dar um puta sono...




Acima: nada mais gostoso do que uma manha com como muito ripio e chuva.  

 abaixo: a nova estrada nas serras altas, depois de tomar chuva...






















O céu não se abriu, a estrada foi subindo e logicamente as nuvens ficaram baixas. Pouca luz e aquele frio úmido que incomoda. Logo fui presenteado com um inesperado rípio, a estrada está sedo reformada e pavimentada há anos, as obras começaram no alto e vem descendo. Foram uns 30km sem pavimento. O que só é legal quando a paisagem é bonita...  naquela manha nublada e chuvosa a coisa tinha tons de obrigação...  Não gostei.


Fui subindo sem nenhum atrativo digno de menção ou sequer de fotos. O lugar não é bonito e o clima não inspirava. Passei pelo antigo vilarejo de San Francisco de Alfarcito eram 10:00 (16 °C e alt.: 2.830m). Alí acontece um pequeno e gostoso Caracoles. De lá em diante a estrada segue tranquilamente, com curvas largas e gostosas, e pouco se percebe a subida.

Lá pelas tantas acontece uma barreira policial, que estava examinando demoradamente os documentos de um caminhão beem grande. O engraçado é que ali fica um feroz cachorro bem pequeno que ataca os pneus de tudo o que passa...  Rocinante inclusive.  O policial foi ultra gentil e me deu dicas importantes, quedas de barreiras, chuva adiante e obras antes de San Antonio de los Cobres. 

Varios idiotas motociclistas vem para cá para brigar com a policia caminera argentina... Eu não!!! E tenho muiiiitooo a agradecê-los!!!


Acima: a entrada para o vale-Altiplano, a 4.100m e muito frio( o lugar se chama Abra Blanca)

 abaixo: tem uns lugares bonitos, repare na estrada nova



























A 3.400m se altitude surge a vila de Las Cuevas, e a estrada bifurca, quem quer emoção e rípio vai pela direita, a Vieja 51. Resolvi fingir que estou em um passeio normal e segui pelo novo trecho em asfalto. Começou a chover e a temperatura despencou para oito graus...

A serrinha sai de 3.400m e termina a 4.100m. Lindo trecho e uma surpresa pra lá de agradável!!  Eu ja estava me considerando realizado naquele dia de roteiro improvisado. Após a serrinha acontece o amplo vale marcado pelo colossal bloco formado pelo Nevado de Acay (alt.: 5.570m) à minha esquerda (sob nuvens...) e com a cordilheira principal ao fundo. Aquela imagem era bonita, mas não a mais legal que eu já tinha visto por aqueles cantos.

Coloquei os casacos de frio e fui andando devagar, olhando para o sul e avaliando a possibilidade de subir para Abra de Acay partindo da RN51 para o norte. Mas o ceú estava fechado para os lados do vulcão e a obra da nova estrada destruiu o trevo com a RN40. Passei e não encontrei a saída.  A tristeza foi ver o Nevado de Acay  sob grossas nuvens de chuva.

Acima: não parece, mas o piso estava péssimo, os caminhões passam rápido e sua boca fica cheia de areia....
















O problema começou 10 km antes da cidade. O trecho asfaltado estava com umas barreiras e havia um desvio por uma péeeeeessima estará de rípio, pior do que o piso  chileno de dias atrás.  Andei o trecho reclamando, e sendo ultrapassado por caminhões enormes.  Eles levantavam uma grossa nuvem de poeira e eu fiquei com a boca cheia de areia!!!

Cheguei na vila eram 11:20, fiquei chocado com a feiúra do lugar, eu sabia que era ruim, mesmo assim me espantei.  Desci a estrada para a vila procurar amor e carinho... 

Na falta destes me contentei com água, o sanduíche do hotel e descanso.


Lua de mel ideal: na capital mundial da poeira!  A saída para o Paso Sico fica à esquerda...  a RN40 sai pela direita ( norte)















A vila ganha fácil o título de capital mundial do vento e da poeira. Fui ao Hotel de las Nubes, onde eu sabia que encontraria uma comidinha caliente. Almuerço e uma siestita no sofá da varanda. Mas o hotel estava deserto e o restaurante não me encantou. O sofá estava duro e a recepcionista era surda-muda. Decidi procurar informações sobre o caminho para Abra de Acay. A informação da policia  e do rapaz do centro de turismo foram claras: a estrada está interditada há duas semanas, um dos riachos arruinou o caminho.

O que fazer então? Me sentei em uma mureta na rua e fiquei olhando a moto na outra calçada. Mastigando lentamente o sanduíche. Eu não queria voltar pelo mesmo caminho bobo, chuvoso e com rípio elameado... Até aquele momento meu dia tinha sido sem graça e cansativo, com meus objetivos ficando inviáveis. Nada mais poderia piorar naquele dia. Respirei fundo, me levantei e decidi terminar o dia de uma forma mais interessante!!!


Eu andei 195km, em tese teríamos (ao nível do mar) mais 140km de autonomia. Em grande altitudes a Rocinante bebe pouco, portanto calculei que teria pelo menos mais 190km com aquele combustível. Ha um único posto em San Antonio e eu fui para colocar somente mais dez litros. Enquanto o sonolento senhor 
do posto se ocupava com a gasolina, eu comentei sobre  o horrível piso para chegar na cidade, o viejo señor  respondeu de pronto: “ por que não veio pela asfalto?  Todos nós passamos pela barreira e não pegamos o trecho por onde passam caminhões e trouxas...”


O sábio também confirmou que naquela tarde, tal qual ontem, cairia um temporal...

Sua escolha: de volta pelo mesmo caminho chato e chuvosos ou pela lendária RN40 ( somente 110km de sol, poeira e rios!)

























Ali acontece algo curioso: construíram uma estrada nova que vai à Susques pelo oeste, deram à esta o nome de RN40.  A Cuarenta original sai para o norte direto daquela vila, em direção a vila de Abra Pampa (pertim da Bolivia...). No caminho a ruta cruza a RN52 que vem de Purmamarca, e pelo Salar Salinas Grandes (vide post 25-12-2011). O trecho estave quase abandonado, mas nos ultimos anos se tornou parte da rota dos caminhões para o Chile, então a estrada está larga e retificada. E foi por ali que eu decidi seguir até Susques. Coisa de 100 km pela gigantesca planície que forma o Salinas Grandes.

Acima: logo na saída de San Antonio de Polveres...

Abaixo: Agora sim!! altitude, vento, deserto e silencio!!!   leeegaaalll!!!! 




























Saí de S. A. de los Cobres eram quase 12:20 (frio de 12C era disfarçado pelo sol forte) e eu teria luz até as 19:00. Portanto eu teria muito tempo para encontrar o asfalto da RN52 (Paso de Jama) e seguir para o hotel em Susques. Segundo as informações seriam somente 98km de ripio e areia, 33km/h de média. Eu achava que seria lento mas fácil, mas foi tranquilo e bonito, porem extremamente cansativo e com trechos bem difíceis. Tive que negociar vários poços de areia, muitas costelas de vaca, poças de lama que eu contornei pelo meio do deserto (muita habilidade e calma nesta hora...). Passei por uma coleção de riachos, sendo que o último foi o mais legal: muito fundo e com forte correnteza, mas todos tinham fundo de pedras o que fez das travessias algo seguro e demais de divertido!

Acima: as inesperadas chuvas em março fazem a estrada passar por baixo dos rios... 

 Abaixo:  dia lindo e muito deserto pela frente.


Acima :  Estas são Guanacos femeas, primas das Llamas e das Vicunhas, são muito grandes e extremamente lerdas (os machos são velozes). Ficaram na minha frente e a %$@#$  da maquina fotográfica não ligava!! Tirei estas fotos elas ja estavam relativamente longe.  Em 20.000km pelos andes é a primeira vez que vi uma manada delas!!!





























Longos trechos de reta e a deslumbrante paisagem da planície no deserto com montanhas distantes. Altitude entre 3.400 e 3.600m, 20°C.  Lindo  e silencioso...um silencio que só existe por ali...



Acima: Note o reflexo do salar cheio de água. Coisa que só acontece em novembro e dezembro estava ocorrendo em março... Pena  e abaixo:  A estradinha que leva ao centro do salar. O inocente piso marrom claro é o lodo depositado por cima do sal. É extremamente escorregadio!  me deu um P trabalho sair dalí!!!






























Coisa de 59km depois da vila, encontrei um estradinha de acesso a uma mineria do salar, entrei para ver como era e descobri uma estradinha que avançava muito dentro do salar. A curiosidade da moto me levou até onde fica o salar. As chuvas criaram um piso absurdamente escorregadio. Era uma camada de lodo que se depositou por cima do sal. A coisa era um sabão e eu mal consegui andar a pé em cima daquilo ( a lama colava em tudo, botas, pneus pedaleiras e para lamas...). Eu precisei de toda a minha habilidade ( e aqueles pneus) para sair de lá!!! Voce nem imagina o trabalho para virar a moto 180 graus...

A aventura no salar valeu a pena!!!  Gastei 40 minutos para andar 10km, mas foi bárbaro ver o salar inundado ao fundo e a margem do lago de sal. Naquele trecho eu homologuei meu PHD em estradas dificílimas com a pesadíssima e muito potente Rocinante. Foi além de muito dificil....


Acima: Ajudei este casal de franceses a concertar o carro. Eles estavam sem margem para chegar em salta e tomar o aviao para Paris... Nunca me agradeceram 

Abaixo: é a mesma formação geológica ( e altitude) do Atacama, só que se chama Puna Jujeña.



Acima: o cemitério que nunca ficará lotado. 

Abaixo: Tres morros, mais uma das inúmeras vilas abandonadas ou usadas por curtos períodos. 












































Depois de 89km de poeira, suor e costelas de vaca eu cheguei ao monumento local: um cemitério e uma vila abandonada.

Eram 16:15 (19C) quando parei para descansar, tomar água (descobri que a covarde garrafa de dois litros pulou da moto e me abandonou) e devorar os últimos quitutes doados pelas senhorinhas do hotel. Estava muito cansado, desidratado, queimado de sol e extremamente feliz.

O lugar é lindo, o silencio total e o vento fraco. Deserto de um lado ou salar do outro, absolutamente ninguém na vila. 3.450m de altutude. Estava sentindo aquele cansaço gostoso... Se eu queria chegar ao nada, eu tinha completado minha missão!!!

Apesar do clima e das chuvas terem frustrado meus plano originais, eu estava satisfeito e com saudade de casa.

Enquanto eu admirava a imensidão e o vazio, vejo um jumento selvagem se aproximando..  estendi a mão e falei umas bobagens, ela (uma femea) acelerou o passo e veio checar tudo o que estava acontecendo. Cheirou tudo, brincou comigo, ensaiou me dar um coice e adorou o carinho na cabeça. Eu não entendi nada, dizem que estes bichos são agressivos e indomesticáveis, uma praga no altiplano. Nos  divertimos muito!

Acima e abaixo: quem diz que eu ando só???  conquistando coração das femeas da região!  foi engraçadíssimo!

Ela só chegou mais perto quando eu deixei a camera e a garrafa no chão.































Eu tinha três opções: a primeira era fazer companhia aos moradores do cemitério, a segunda seria seguir para Susques, que estava sob nuvens com chuva ou, última alternativa, voltava para Salta via Purmamarca.

Me despedi da minha linda namorada e segui os últimos km no rípio tomando cuidado para não cair e voltar ao cemitério... só que como morador! 




















Logo encontrei o asfalto, depois de 3:30 min andando pelo ripio no meio do nada. O plano original era  seguir para oeste e ir dormir em Susques. Mas as montanhas em susques estavam embaixo de grossas nuvens, ou seja, noite de chuva e nada de céu estrelado (somente lembrando: chove e muito no atacama). Decidi seguir o plano tres...  voltar para salta e quem sabe jantar naquele excelente restaurante que eu ainda não conheço.

Tirei umas fotos do salar, dei meia volta e segui por um das estradas mais bonitas que conheço, em direção à Purmamarca pela RN52 (paso de Jama).



Acima e abaixo: o salinas Grandes cheio de água e barro.



Acima e abaixo:  a maravilhosa estrada entre o salar e a Cuesta de Lipán


Acima e abaixo:  meus úlmimos metros a 4300m de altitude.

















A altitude logo chegou as 4.300m e temperatura caiu dos 15 graus para algo acima de 5°C. Foram somente mais 38 km morro acima em uma tarde linda  e depois a descida para Purmamarca em uma neblina de cortar com a faca... A bateria da maquina fotográfica acabou naquele trecho.



Acima :  Minha última imagem dos Andes ( a bateria da maquina acabou...)


A descida da Cuesta de Lipán ( que é maravilhosa sob o sol) foi lenta com neblina grossa, frio e visibilidade de poucos metros. Cheguei à parte inferior das nuvens a coisa de uns 20km antes de Purmamarca ( vide post 24 e 25 dez 2011).

Saindo de Purmamarca subi por alguns Km da Quebrada de Huahuaca até o posto de gasolina em Tilcara. Fiquei horrorizado com a pobreza e miséria das vilas. Aquela estrada leva à La Quiaca, fronteira com Bolívia e muitos Bolivares fugiram do Evomorales para viver naquele vale. Show de horror com direito a mulheres muito feias e carros podres com volume no úrrtimo!!!

Eu andei quase 400km para fugir da chuva, mas ela me pegou na saída do vale antes de San Salvador de Jujuy. A viagem entre Tilcara e o vale em Jujuy foi cansativa, lerda e molhada. Muito movimento, cheio de caminhões e as estradas em obras.

Entre San salvador de Jujuy e Salta o caminho foi tenso. Um breu total, pista única, calor e muitas obras na estrada.  Ha uma vila chamada General Guelmes onde a avenida faz um cruzamento com a rodovia. Eu já o conhecia, mas naquela noite a coisa estava especialmente confusa e congestionada. Só me livrei dali por que a Rocinante anda bem pelo caminho em terra molhada paralelo à pista. Assisti a um acidente causado por um Boludo que passou pelo sinal vermelho e foi atingido por uma caminhoneta.. nem fiquei para ver... mas teve gente q se machucou ali.

A chegada em Salta foi chata e cansativa. Noite abafada e extra escura... eu cansado não quis andar rápido. Fui direto ao hotel, tinha feito plano de jantar em um restaurante ultra agradável...  mas estava arruinado demais para tanto. Busquei um caixa eletronico para sacar um $ e jantei no hotel com direto à muito vinho.

Coloquei a pequena mala sobre a cama, coloquei as câmeras para carregar, peguei o celular e fui avisar às pessoas queridas de que eu estava bem.

Foi talvez o dia dificil e o mais bonito desta etapa.






Em azul a parte pavimentada, em vermelho o rípio. De jujy à salta durante a noite. Muita chuva e movimento entre Purmamarca e jujuy.



“I have always loved the desert.

 One sits down on a desert sand dune, sees nothing, hears nothing. Yet through the silence something throbs, and gleams.” - Antoine de Saint-Exupéry




                           Etapa de hoje:  573km
Tempo andando: 10:52- isso mesmo....
Tempo total: 13:38
Distância acumulada: 5.035 km