quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Comentários soltos de um dia sem brilho.




O frio e a chuva me deixaram resfriado e indisposto em Vinha del Mar. Percebo agora que o hotel e seus ácaros ajudaram a piorar meu resfriado!



Nada de especial... só o fato de estar no oceano "do outro lado".

Vinha del Mar é um guarujázinho... maioria dos prédios feios e até kitsch. Mas é a praia mais badalada que eles tem...  Na parte norte fica a praia, no sul a cidade mais industrial e o porto. Nada memorável. Como ontem fez frio e até choveu, andei pouco pelo centro da cidade, fui almoçar no Mall e fiquei grande parte da tarde escrevendo para o blog. Fui a uns restaurantes indicados, comi bem ponto, nada de excepcional.


Como estava adiantado um dia, resolvi ficar e nem olhar para motocicleta ontem, foi bom para colocar as malas em ordem e cuidar da saúde. Trouxe pouquíssima roupa e algumas ferramentas e equipamentos tipo computador, compressor de ar e a volumosa pasta com documentos. Se eu não montar tudo direito as malas não fecham!!  E estas malas da BMW são mais bonitas do que funcionais.

3472 km até agora... 16 graus...


355m de altitude e 13:38 da tarde...

Saí tarde do hotel, meio dia. Frio 16 graus e nublado. O caminho até Talca é curto, somente 360km. poderia ter feito mais, mas como a  parte legal será daqui a dois dias, pra que abusar.

Eu uso o GPS como suporte, estudo o caminho antes e sei bem para onde ir, mas hoje o GPS me mostrou outro caminho, por estradas secundárias que foi muito mais divertido do que ir só pela autoestrada. 

Esta parte do Chile parece demais com o Brasil na região de  Itatiba  e Valinhos. Muita fruta, muitas indústrias de fruta e muitos vinhedos e vinícolas. A estrada tem a mesma engenharia que no Brasil, só que o piso é perfeito. Tinha horas que eu me achava no interior de Minas, mas sem queijo... Foi muito gostoso, pena o frio.





 Dá para NÂO parar????

vista da janela do meu quarto em Talca...





TAlca parece com uma cidade Paulista como Rio Claro ou Limeira. As ruas são mais limpas e não tem buraco, fora isto... O Bruno rosa me colocou num hotel barbaro! 





Agora faz sol e calor, meu resfriado melhorou muito e amanha voltamos à rotina de acordar cedo e continuar mais 400km ao sul antes de virar para leste em direção novamente aos Andes e à região chamada de Lagos Andinos.








Parada Obrigatória!!!!

O que é isso????

 


Por estas bandas todos são católicos e fervorosos! É muito comum encontrar oratórios e pequenas capelas construídos à beira da estrada, todos cuidados e enfeitados, com flores, e velas (não meu amigo, num tem galinha e nem bode com charuto...).

Não mencionei no texto de ontem que o trecho andino era tão magnífico que eu andei muuuuito devagar, a moto fez 20,0 km\l ! Então, durante a subida ontem, do meu lado esquerdo vi um monte de coisas no chão coloridas e por uma grande extensão. chegando mais perto imaginei que uma carreta com garrafas PET tivesse tombado. 


Só que no meio delas há um santuário...  imediatamente declarei: Esta santa é a poderosa daqui!!  É a santa dos andinistas!!! Andei mais 50m, retornei, passei por ali e notei as pedras pixadas com nome da santa!  Mais cem metros retornei de novo, e estacionei debaixo de uma arvore do outro lado da estrada.


Camera em punho e a única preocupação era descobrir o nome da santamilagreira defensora de motociclista-longe-de casa.

Me postei diante da placa e solenemente li o nome da santa: “ Difunta Correa

PQP!!!

Difunta Correa!!! Como diria a Fabiana: Ooooxiii!!!!


Há varias placas, declarações de fiéis, umas quatro velas e um milhão de garrafas de água!!! Não esperei nem mais um segundo: fui até a moto buscar uma garrafa de água!!!

Uspallata fica dez minutos morro acima da catedral Correa. Parei no posto para comprar outra água e fui fazer a lição de casa. A moça da bomba de gasolina me disse que era um local de agradecimentos à difunta, quando eu mostrei interesse pela história ela disse que seu pai conheceu a Difunta e chamou o velho, o velho disse que quem conheceu mesmo foi o pai dele e tive que segurá-lo para não trazer o ancião!!!


Consta que a Sra. Correa foi pega de surpresa com o Rio Mendoza seco, morreu de sede porque deixou toda a água para seu filho de colo, que foi salvo. Entonces, todos param para a ajudar a senhora, com água, que tem dado muita ajuda em troca aos andinos.



Bem, estou escrevendo de um confortável hotel no Chile, com toda a certeza Difunta Correa me ajudou muito! Gracias Señhora!



El Condor passa... Paso Cristo Redentor



O vídeo desta etapa está sendo montado de 42 pequenas cenas, 
dando um p... trabalho!!!


este "riacho" é o Rio Mendoza, repare em sua obra.



O Vale do Mendoza invade a cordilheira.


Quando eu montei esta viagem, sempre me perguntava por que esta ligação tão importante usa a parte mais alta da cordilheira dos Andes. Este caminho tem origem Inca, depois reorganizado pelos espanhois como Caminho real del 0este, consta que os espanhóis destruíram todas as pontes e passagens Incas com medo do acesso fácil... ... a viagem em lombo de burro levava seis dias no mínimo. Somente depois da paz entre Chile e Argentina em 1904, por conta de fronteiras, é que se começou a tomar forma a rodovia que caminhava ao lado da ferrovia inaugurada em 1910. A estrada passava pelo Paso de los Cumbres, uma passagem a 4.200m de altitude, depois na década de 20 seguiu por um túnel compartilhado com a ferrovia e somente em 1980 foi inaugurado o atual (mas apavorante) Tunel del Cristo Redentor. Até a década de sessenta, o caminho vinha pela estrada em que passamos ontem! Pela difícil Serra de Potrerillos entre Uspallata e Mendoza, daí aquele hotel naquele fim de mundo! O traçado atual, uma estrada impecável, ficou pronta em 1979 e sem o ziquezague da antiga economizou quase 90km no percurso. Mas a pergunta ficou... Por que por aqui?

O Mendoza

Ao entrar na Ruta 7 e seguir a oeste (900m alt.), se percebe que naquele lugar a planície invade cordilheira a dentro e logo se descobre o grande canyon que o Rio Mendoza cavou em milhões de anos. Na verdade o rio teve a ajuda do sol, que esquenta a pedra de dia para que esfrie à noite, daí  a pedra racha aos poucos, quebra e se solta para o rio levar embora.


 Nem preciso dizer que  as montanhas são imponentes e que a vegetação é quase inexistente. O caminho sobe sem que se perceba, passa pela represa de Potrerillos (1.100m alt.),  segue ao lada da antiga ferrovia, com varias das pontes ainda em pé, e depois segue norte até a conhecida Uspallata (1905m alt.), de onde  viramos novamente para oeste e sudoeste seguindo a colossal obra de arte feita pelo Rio Mendoza até encontrar outro vale, 
o do rio Las Vacas (2400m alt.).









O Zeé Ricardo, Pelayo e Salim vieram com o Haduda!!!!

O que diabo é isto na beira da estrada? Amanha eu conto!!!


Procurei, fuçei e encontrei! Esta é a estrada original!! Usada até 1979!

Eu vi um monte de vans de turistas entrando Rio Picheuta  acima...  Se eles vão eu também vou!!!

Acima o rio Picheuta...

Abaixo o motivo de tanta curiosidade e comoção: a ponte por onde San Martin e seu exército passou em 1814... ...humpf...





Meus irmãos diriam que aquilo é um gigantesco “sabonete”.
E parece mesmo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!



A obra do Mendoza, eu ainda na estrada antiga, custou para reencontrar  a nova...

Vale do rio Blanco que desagua no Mendoza, com a fonte de agua no fundo: os picos com neve eterna.



Rochas diferentes tem erosão e deterioração diferentes.




Las Vacas é um rio importante que se junta com o Las Cuevas para formar o Mendoza, tem-se uma rápida oportunidade de olhar para o vale do Las Vacas, que segue ao sul e se origina do degelo da região mais alta da cordilheira. Em Las Vacas existe uma guarnição do exercito argentino e o último posto de controle na Argentina. Todos param e demoram um pouco, já estava esperando o pior, pelas histórias de terror e masoquismo que me contaram. A policial (farda zero-bala) olhou para mim, sorriu quando soube que eu vinha rodando de longe, olhou para minha carteira de motorista por exatos dois segundos e feliz me mandou embora 







Continuei até a Ponte del Inca  (2.659m alt.) onde nos sites se dizia existir um “monumento natural superlativo”. Bem.... humm... O que existe é uma curiosíssima formação de pedra, pela qual o Las Cuevas abriu um enorme buraco e por conta dos minerais na água a Ponte Del Inca tem um tom amarelo vivo.

A ponte... a cor vem dos minerais...

Para quem adora a praça da república o lugar é prato cheio! Se vende de tudo! Aqueles gorrinhos andinos que estudantes revoltadinhos usam, as bolsas de lã Inca, pedras que curam de tudo, bonecos de barro, alguns até engraçados e vários acepipes e gorós locais.










Meu deus!!  o que é que eles carregam tão felizes???????


Solução para todos os males!




Parte da ferrovia.

O mais interessante é o que eu descobri lá... (...como sempre perguntando... ) No lugar ainda existem as ruínas da Ferrocaril Transandina, que foi inaugurada em 1910, ficou fechada de 1942 até 1954 por conta de um avalanche e foi fechada definitivamente em 1984. Existia um trem de primeira classe sofisticado (embora mais lento porque  era mais pesado) e em Ponte del Inca existia um luxuoso Hotel-Spa. Os bacanas da época vinham até o hotel para relaxar no Spa, tomar banho nas fontes de água quente e jogar...  ... não nesta ordem. O hotel foi totalmente destruído por uma avalanche. Só sobraram a capela e a sala de banhos, embaixo do “monumento natural”.









Aconstrução não é inca!!! São as salas de banhos do extinto hotel. Repare na capela logo acima. A vegetação a direita da capela está no lugar do hotel;















Edelweiss andino...


















Chamaram-na de Caballo de Hiero...

Saindo do parque parei em Penitentes (3.171 alt. e 13 graus..) para comer algo e comprar mais pilhas para filmadora ( que as devora...), eram 16:00. O lugar foi um importante centro da ferrovia por ser a metade das nove horas de viagem de trem e onde se esperava em caso de avalanches ou nevascas. Hoje está tudo abandonado, onde almocei era menos de um quinto do prédio de um antigo hotel. Almocei comum casal de alemães ( vide filme) completamente fora da casinha, literamlmente, eles dormem em barracas nas montanhas.



Estação fantasma...


repare na cor da rocha, e no céu fechando





Esta pequena sala, onde almocei, é a única ainda em uso em um hotel grande da ex ferrovia.

16:10... 3171 metros de altitude e 13,5 graus...aki até que estava gostoso...



está quase lá, o percurso todo durou somente 421km, gastei 12 horas para faze-lo com calma e prazer.

Saindo de Penitentes, logo se chega à entrada do túnel Cristo Redentor (3.200m alt.). O túnel com 3km de extensão deveria se chamar “Piratas do Caribe” é escuro, os caminhoes te assustam, barulhento, esfumaçado e vai descendo... não achei nada divertido. Na saída do túnel (todo sofrimento tem um fim...) estamos no Chile. E sou muito bem recebido com obras na estrada, sem pavimento, monte de caminhões e frio.

Se vê a aduana  de cima da estrada, e a visão não agrada: uma P#&@ zona!!!  Caminhoes, muitos onibus, carros e motos de todos os tipos, até encontro amigos brasileiros viajando de GS.


Na Argentina e Uruguay, até a gora as adunas sempre foram o máximo em simpatia, atendimento, simplicidade e rapidez. Aqui a história foi bem diferente. O guarda chegou me dando ordens de estacionamento, quando ele perguntou sobre a moto eu não tava muito aí para ele... Estacionei onde um bando de crianças, todas uniformizadas de azul, me indicou. A criançada, muito prestativa e engraçada, não parava de me entregar formulários que eu tinha que preencher. Vários! Mas pra que tanto formulário? As crianças estão enganadas! 

Dentro do prédio, a aduana parece uma rodoviária: cheio de pequenos guichês e lotaaadoooo. Dei azar de ficar na fila atrás de um daqueles Maradonas com quatro filhos e com nenhum documento certo ou que não estivesse amassado. Em vez de esperar, resolvi tirar fotos... imediatamente sirgiram três guardas que me impediram. De volta à fila do balcão 1. Depois do papelório do balcão 1 vc vai para o balcão 2, depois para o três, dái mostrar a papelada da moto, depois de mostrar, você entra em outra fila para carimbar a papelada, são quatro carimbos. Para daí comprar o tíquete del peaje, onde só se aceitam pesos chilenos e vc tem que ir comprar o dinheiro local. Feito tudo isto em somente uma hora e quarenta minutos, sou autorizado a ir buscar a moto no patio para la verificación ... que alegria!


Entrada do galpão para assinar, carimbar, pagar e Hacer la verificacion!!


Daí foi a melhor surpresa: choviiiiiiaaaaa e 
muiiitoooo friiiiiioooooo brrrrrrrrrrrrrrrrrr.

Pego a moto e volto para a fila de carros, em um piso de lama escorregadio. Juro que pensei em cair, quebrar algum membro para depois processar a república chilena. Parado na fila deixei o motor ligado para ver se me esquentava e para funcionar os aquecedores de manete (não... rarley-deivizon não tem aquecedor...). Aquele guardinha para quem eu não respondi era quem coordenava quem entrava ou não no galpão para la verificación.

Não contei, mas acredito que foram uns 5 minutos na chuva a oito graus esperando la permissión del verificación. Calma que ainda não acabou... feita la verificación, onde se mostra com orgulho todos os carimbos obtidos, eu saí (na chuva) em direção a estrada, daaaaíiiii, depois de uns 200m tem La barrera, onde adivinhem, eu tenho que descer da moto,abrir a mala, pegar a pasta de documentos e mostrar tudo de novo... Amei!!!!!!!!


recepção calorosa dos chilenos: 8 graus com chuva e guardinha besta!

A engenharia Chilena merece atenção. Para reformar ou recapear a estrada eles destroem totalmente o que existia para fazer de novo, resultado: coches, caminhones e el Kiko todos andando ladeira abaixo em estradas de lama!!! Alguns quilómetros depois se chega a mais uma obra prima chilena: Los Caracoles!!  Veja as fotos, todos os meus amigos adoraram isto, porque passaram em um dia de sol e calor...  eu só via no piso uma pasta branca de água misturada com óleo. Los Caracoles  gasta pouco mais de oito quilômetros para descer 1500m! Perceba o tamanho da encrenca!!!


é mais fácil descxer pelo barranco!!!

Terminadas as 29 curvas, a estrada segue pelos Andes chilenos à beira do Rio Aconcágua. Como do lado Chileno a cordilheira é bem mais íngreme e próxima do mar, somente 150km em linha reta da aduana até o pacífico, chove muito mais  (...jura...) neste lado e o lugar é todo mais verde. Tudo arrumado e com um charme que parece com a Alemanha. As estradas são idênticas às brasileiras, o piso é melhor, de resto é tudo igual, tem momentos em que eu me senti na Anhanguera ou na Fernão Dias.



















O Chile é lindo. Um charme todo próprio, vamos falar mais depois. Estava no programa dormir logo depois da serra, mas segui por mais setenta quilômetros de sol (mas frio, 19 graus), até Vinha del Mar, uma espécie de Guarujá local.







Não pense que eu vim aqui para curtir praia! Eu vim para molhar os pés no Oceano Pacífico, depois de cruzar todo o continente e uma cordilheira com uma moto e uma câmera.


Finalmente!! O oceano pacífico...

O José Ricardo sabe como a gente se sente...